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Programação do Simpósio BL e GL e Inscrição de Ouvintes

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    nepfanfic
  • há 2 dias
  • 14 min de leitura

O Simpósio BL e GL é promovido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas de Fãs e Fanfic (NEPF²) da Universidade Federal Fluminense (UFF). Com o tema "Boys' Love e Girls' Love em Perspectiva Transnacional", o evento busca reunir pesquisas acadêmicas, científicas e relatos de experiência sobre obras de Boys' Love (BL), Girls' Love (GL) e seus fandoms, ampliando o debate sobre essas produções em contexto transnacional. Confira detalhes e programação abaixo.


  • Formato: Online

  • Evento: 17 a 19 de agosto de 2026

  • Participação gratuita

  • Inscrições de Ouvintes: 03/08 a 19/08 (LINK)



17/08 (Segunda)


10h-12h

True Love or Good Business? Girls' Love and Thailand's Y-Culture as Queer Fantasy Economy

Prof.ª Dr.ª Eva Cheuk-Yin Li (King’s College London) e Prof.ª Dr.ª Janet Ka-Wei Pang (The Chinese University of Hong Kong)


PALESTRA EM INGLÊS


This talk offers an overview of the development of Thai Girls' Love (GL) media, situated within the broader category of Thai Y-series alongside Boys' Love (BL). We trace this development from the broadcast of the first live-action GL series, Gap (2022), to the present, and survey some of the core debates that have shaped the genre's study as it has grown into a major regional and global media industry. Given GL's particular proximity to a queer women and sapphic audience, the question of 'queerbaiting' has been especially central: whether the genre's suggestive but rarely explicit treatment of same-sex intimacy amounts to a marketing strategy that exploits queer audiences without delivering on its promises, an allegation frequently raised by international fans. Drawing on existing scholarship on Boys’ Love and on our own empirical research, combining interviews, digital ethnography and participant observation, we propose the concept of the ‘queer fantasy economy’ (Pang & Li, 2026). Rather than asking whether queerbaiting simply ‘happens’, we trace how producers, performers and audiences jointly sustain an economy of queer fantasy, desire and disavowal, in which ambiguity itself becomes commercially and affectively productive across both BL and GL production. The talk closes with some reflections on how the GL industry appears to be shifting since the success of the first wave of GL productions in 2022 and 2023, an invitation to think together with the audience about where this fast-moving field might be heading.



14h-16h30

Entre palavras e imagens: Uma tradução intersemiótica de Mo Dao Zu Shi

Beatriz de Jesus Corrêa (Bacharel pela Universidade de São Paulo) e Ma. Daniela Montano Patrocínio (Universidade de São Paulo).


Explorando um mundo de cultivo, conflito entre clãs e o amor além do tempo, a série televisiva The Untamed (Os Indomáveis) (陈情令 Chén Qíng Lìng) teve sua estréia em 2019 pela Tencent Video, contando com 50 episódios. Situada no gênero fantástico chinês Xianxia (仙侠 xiānxiá) e no Danmei (耽美), a série é uma adaptação da web novel Mo Dao Zu Shi (魔道祖师) também conhecida como Grandmaster of Demonic Cultivation, da escritora Mo Xiang Tong Xiu. Publicada na plataforma online Jinjiang Literature City entre os anos de 2015 e 2016. Tendo como base ambas as obras, novel e série televisiva, pretende-se fazer uma análise comparativa entre elas e entender quais as diferenças que se encontram na adaptação de uma obra para outra e o porquê dessas diferenças ocorrerem. Como metodologia de pesquisa adotou-se uma perspectiva descritiva de cunho bibliográfico para a exploração e esclarecimento do referencial teórico, abrangendo o princípio da adaptação, em seguida foi realizada análise do objeto de pesquisa tomando como base os conceitos estabelecidos na primeira etapa, comparando determinados aspectos da adaptação televisiva The Untamed (2019) com a novel O Fundador da Cultivação Demoníaca publicada no Brasil entre os anos de 2022 e 2023 pela Editora New Pop. Júlio Plaza (1987), destaca que toda tradução é criadora, retomando a divisão de Roman Jakobson em três tipos distintos de tradução: a intralingual, a interlingual e a intersemiótica. Sendo a tradução intersemiótica a interpretação de signos verbais por meio de signos não verbais, cada derivação sofre mudanças de acordo com as peculiaridades de cada sistema semiótico ao qual foram submetidos. A série Os Indomáveis (2019) constitui uma tradução intersemiótica da novel Mo Dao Zu Shi por ser a tradução de um sistema de signos visuais para um conjunto de signos audiovisuais, sendo utilizados diversos recursos como fotografia, atuação, montagem de cenário, trilha sonora, entre outros. Como resultado, cria-se uma nova obra, que é vinculada à sua fonte, mas possui independência dela ao mesmo tempo. Para exemplo dessa independência, cita-se dois pontos em que a adaptação sujeita-se ao seu contexto de recepção (Hutcheon, 2011), sujeitando-se às severas restrições televisivas chinesas: a suavização das cenas de violência e do relacionamento dos protagonistas. Ademais, uma vez que, Mo Dao Zu Shi permite análises multi plurais dada a riqueza de seu universo, pontua-se que a seguinte pesquisa trata-se de um ponto de partida para uma análise de maior profundidade do objeto estudado.


Boys’ Love: subgênero, gênero ou demografia?

Prof. Dr. Júlio César Valente Ferreira (Universidade Federal Fluminense) e Palm Gurgel de Oliveira (Mestrando da Universidade Federal Fluminense)


Considerando a ampliação do ecossistema produtivo e de circulação e consumo de animes e mangás por conta da intensificação dos fluxos promovidos pelas plataformas digitais na mundialização de tais artefatos culturais, a diversificação de públicos e obras tensionou o cânone classificatório de demografias estabelecido pelos produtores culturais japoneses, baseado tão somente em sexo e faixa etária. Definir Boys’ Love (BL) é uma tarefa difícil. A princípio, o BL surge como uma variação de histórias presentes nas das revistas Shōjo; obras como Kaze to Ki no Uta marcaram o início da trajetória do que iríamos vir a chamar de Yaoi e, eventualmente, de BL. A realidade que conhecemos hoje não foi, definitivamente, algo constante desses anos de evolução, visto que a história do BL é marcada por obras diversas que funcionam, de certa forma, como demarcadores de tempo. A partir do momento em que essas obras deixam de ser, necessariamente, obras Shōjo, elas tomam uma nova posição de mercado e assumem para si uma nova categoria. Existiria, então, um ponto de ruptura para isso? E, senão exato, existiria algum demarcador importante para entendermos esse desvio? Embora esses questionamentos sejam, sem dúvida, cruciais para analisarmos o que entendemos como BL hoje, existe uma ponderação que paira sobre quaisquer análises: o que é Boys’ Love? Os animes e mangás Boys’ Love passaram por transformações significativas nas últimas décadas. Inicialmente voltados a um público feminino e marcados por estereótipos românticos, ampliaram sua diversidade temática, incorporando narrativas mais complexas, representações LGBTQIA+ mais plurais e maior preocupação com consentimento e relações igualitárias. Desta forma, nossa questão de pesquisa recai sobre a problematização do Boys’ Love ainda ser categorizado como um subgênero de romance Shōjo. A hipótese adotada neste trabalho é que a ampla miríade de temas e gêneros narrativos adotados permite fomentar o debate sobre o entendimento do Boys’ Love como um gênero ou uma demografia editorial. Para tal empreendimento investigativo, adotou-se o estudo de caso como método de pesquisa com o uso das técnicas de: (i) coleta e análise de dados obtidos por consultas bibliográficas e documentais; (ii) apreciação de animes e mangás Boys’ Love por análise fílmica e de narrativas gráficas e (iii) sistematização do conhecimento empírico dos autores, os quais são consumidores e participantes de redes colaborativas de fãs de tal produção cultural. No que tange às considerações parciais desta pesquisa, pensamos que “gênero” seria a melhor definição momentânea. Afinal, é como já é comercializado no mercado brasileiro. Contudo, concluímos que tal definição é, acima de tudo, reducionista em sua essência; não somente ao BL, mas às obras que exploram outros enredos que diferem do gênero de romance. Definir BL como gênero apaga a noção de uma capacidade de metamorfose presente entre países, deixando de lado todas as possibilidades de obras que podem existir em um aspecto transmidiático.


A Força Produtiva dos Fãs de FreenBecky

Eloá Gaspar Barreto (Mestranda da PUC-Rio)


O estudo parte de uma  pesquisa etnográfica com fandoms de Girls’ Love (GLs) tailandeses, com foco no fandom de FreenBecky em contexto latinoamericano, fazendo uso do recorte temporal do período de 2024 a 2027, com uma maior concentração no ano de 2026. Vale ressaltar que não foi negligenciado o período de 2021 a 2023, onde se localizam os primeiros marcos significativos de surgimento e popularização dos GLs tailandeses. Durante a pesquisa etnográfica, foi constatado que diariamente, fãs realizam a produção de fanfics, fanvideos (edits), pesquisam e divulgam notícias sobre seus objetos culturais de admiração, entre muitas outras atividades de forma gratuita, em algumas situações de forma paga, porém um pagamento que não possibilita ou visa lucro, apenas contempla os custos necessários para a concepção de determinada produção e, muitas vezes, esses custos são pagos por meio de doações de outros fãs. Toda essa dinâmica cria um certo acúmulo de trabalho gratuito e/ou precariamente remunerado realizado por fãs, que direta ou indiretamente agrega valor aos produtos da indústria cultural e de entretenimento. Sendo assim, o objetivo principal desta pesquisa é compreender de que modo se dão os processos de produção e de trabalho dos fãs, considerando suas motivações afetivas, motivações materiais, aderências identitárias, trajetórias de vida, bem como seu papel no contexto cultural contemporâneo brasileiro. Para responder à questão central deste estudo, elegeu-se a pesquisa etnográfica, unindo observação participante, entrevistas e análise documental junto ao fandom brasileiro de freenbecky, por meio das plataformas online X, Tik Tok, Instagram e WhatsApp e também de forma física por meio de participação em evento de fãs como o fanmeeting Love Spreads in São Paulo de FreenBecky.


19h-21h30 

Fabulações Futuristas e Possibilidades de Ser: Gênero, Sexualidade e Emoções nos Fandoms Brasileiros de Danmei

Ana Beatriz Zani de Melo (Graduanda da Universidade Estadual de Campinas)


O presente estudo teve como objetivo compreender como as comunidades de fãs brasileiros de Grão-Mestre da Cultivação Demoníaca e Bênção do Oficial do Céu da autora Mò Xiāng Tóng Xiù (墨香铜臭) encontram nesses espaços lugares de expressão, experimentação e (ou não) pertencimento em torno de questões relacionadas a gênero e sexualidade, particularmente aquelas que são consideradas de alguma forma dissidentes. A pesquisa se deu a partir de uma revisão bibliográfica e a observação participante dentro das plataformas digitais X e Bluesky. Os resultados encontrados mostram que as comunidades revelam modos próprios de convivência, redes de cuidado e reconhecimento mútuo, bem como articulações entre experiências pessoais e imaginários coletivos.


"Quem é sua esposa?”: Uma Análise da Construção de Personagens Homossexuais Masculinos nas Séries Boys' Love Tailandesas Sotus The Series e Bad Buddy

Camille Aguiar dos Santos (Graduanda do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca)


A Tailândia é um país do Sudeste Asiático, conhecido principalmente por sua gastronomia típica, praias paradisíacas e templos budistas históricos, mas, atualmente tem ganhado popularidade na internet por seus numerosos filmes e séries que abordam a temática homossexual de forma aberta. Tais produções pertencem a um gênero conhecido como Boys’ Love, ou pela sigla BL, o qual é composto por obras literárias e audiovisuais que abordam histórias românticas com casais homossexuais masculinos. Nesse contexto, essas obras são vistas como uma forma de trazer representatividade LGBTQIA+ e de celebrar narrativas felizes de casais homossexuais, as quais sempre foram escassas na mídia asiática. Todavia, o crescimento do fenômeno das séries BL na Tailândia ainda se configura como um fato controverso. Isso porque, ainda que o país se projete internacionalmente como uma localidade aberta à comunidade LGBTQIA+, a legislação tailandesa apenas passou a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo em janeiro de 2025, o que demonstra dificuldade na garantia de direitos civis para a sua própria população LGBTQIA+. Sendo assim, o tema da presente pesquisa é a construção de personagens homossexuais masculinos nas séries BL tailandesas Sotus The Series (2016) e Bad Buddy (2021), a partir da análise de suas respectivas narrativas. O objetivo geral deste trabalho é analisar a construção de personagens homossexuais masculinos nessas séries, buscando investigar os sentidos de homossexualidade tecidos em suas práticas discursivas. Desse modo, esta pesquisa visa responder à pergunta: quais são os discursos sobre homossexualidade construídos nas séries escolhidas? Metodologicamente, esse trabalho configura uma pesquisa documental com abordagem qualitativa, em que será realizada uma análise do discurso, com ênfase na análise de narrativas (Bastos, 2004; Bastos; Biar, 2015), dos elementos discursivos das séries escolhidas. Por fim, como considerações parciais da pesquisa, destaca-se o potencial arranjo de marcas discursivas e ideológicas nas séries Sotus The Series e Bad Buddy capazes de tanto reforçar quando tensionar padrões normativos de gênero.



Invisibilidades da Saúde da Mulher Sáfica em Narrativas Girls’ Love: Uma Revisão Narrativa

Caroline Moreira de Souza (Graduanda da Universidade Federal do Maranhão)


O fenômeno das produções Girls’ Love (GL), narrativas ficcionais focadas no romance entre mulheres, registrou uma ascensão global expressiva a partir de 2022, impulsionada pela indústria tailandesa e pela circulação em plataformas digitais. Contudo, embora o gênero tenha ampliado a visibilidade afetiva e a normalização da alegria queer, observa-se uma lacuna persistente na representação de dimensões biológicas e clínicas da saúde feminina. Na literatura de saúde coletiva, mulheres lésbicas e bissexuais são historicamente marcadas pela invisibilidade nos serviços e por barreiras impostas pela heteronormatividade e pelo preconceito profissional, que gera um distanciamento do cuidado preventivo. Esse cenário de "invisibilidade sanitária" encontra reflexos na ficção, onde corpos desejantes são representados sem que suas necessidades concretas de saúde sejam narrativamente reconhecidas. O trabalho tem como bjetivo analisar como os temas relacionados à saúde da mulher lésbica e bissexual são representados nas produções GL contemporâneas, identificando presenças, ausências e silenciamentos sistemáticos frente aos desafios reais da saúde coletiva. Esse é estudo qualitativo fundamentado em dois eixos metodológicos complementares: 1) Revisão narrativa da literatura sobre a saúde de mulheres que fazem sexo com mulheres (WSW), utilizando conceitos de Saúde Coletiva e gênero; 2) Análise temática exploratória de um corpus selecionado de obras influentes (Gap The Series, 23.5, The Loyal Pin, Bloom Into You, Fulfill, Breasts and Eggs e Hit The Spot), categorizando a presença ou ausência de temas como menstruação, prevenção de ISTs, reprodução assistida e atendimento ginecológico. Os resultados indicam que o silenciamento sobre saúde preventiva nas narrativas mimetiza a invisibilidade real: mulheres queer realizam 47% menos consultas ginecológicas anuais que mulheres heterossexuais. Obras escolares como 23.5 e romances como Gap priorizam o sofrimento emocional, mas silenciam sobre menarca e exames preventivos, tratando o corpo como objeto de desejo estético e não como sujeito de cuidado. Outras obras, como The Loyal Pin e Bloom Into You abordam o corpo disciplinado socialmente e a identidade psicológica, porém mantêm o silêncio sobre a sexualidade prática e preventiva. Entretando, exceções pontuais foram identificadas: Fulfill discute a legalidade da reprodução assistida (FIV) para casais do mesmo sexo na Tailândia; Breasts and Eggs aborda a inseminação artificial e a angústia com a menarca; e Hit The Spot dialoga sobre menstruação e prazer, embora limitado por scripts heteronormativos. Persiste, contudo, o "mito do corpo imune" às ISTs entre mulheres, negligenciando diálogos sobre segurança sexual e barreiras de proteção. Assim, a análise traçada denuncia que as produções GL avançam na representatividade identitária, mas reproduzem lacunas de informação em saúde, sustentando estigmas que afastam essa população do cuidado clínico. Diante dos achados do presente estudo, defende-se que discutir tais representações é imperativo para fomentar uma educação em saúde inclusiva e desafiar a negligência histórica enfrentada por mulheres lésbicas e bissexuais a nível local e global.


18/08 (Terça)


14h-16h

Mesa Especial

Equipe BoysLove Hub


19h30-21h30

O fenômeno GL: Como o Girl's Love conquistou o Brasil

Equipe GirlsLove Hub


Durante anos, acompanhar histórias de amor entre mulheres significava garimpar personagens e produções espalhadas pela mídia para ver elas morrerem no final. Hoje, o cenário é outro: a Tailândia lidera uma indústria consolidada de Girls' Love (GL), exportando séries de romance lésbico para o mundo inteiro e transformando o gênero em um fenômeno cultural e econômico. Esta palestra percorre essa trajetória, mostrando como o GL deixou de ser um nicho para se tornar uma ferramenta de soft power e como o fandom brasileiro ajudou a impulsionar esse crescimento, tornando o Brasil um dos principais públicos do gênero.


19/08 (Quarta)


9h-11h30

Quem pode ler e escrever Boys’ Love? Uma análise dos processos de interdição do dizer

Flávia Machado Franco (Mestranda da Universidade Federal do Pampa)


O presente trabalho apresenta uma pesquisa em Análise do Discurso de vertente materialista (AD), que tem por objetivo analisar o discurso materializado em publicações na rede social X (antigo Twitter) sobre leitoras e autoras de Boys’ Love (BL), a partir da categoria de estranhamento (Ernst, 2009). Durante e após a pandemia, o BL passou por uma nova onda de popularidade, escapando sutilmente dos ambientes fechados de fãs. Com isso, foi perceptível a chegada nas redes sociais de um novo tipo de comentário sobre BL e leitoras/autoras. Anteriormente, já era possível encontrar comentários homofóbicos, misóginos e até mesmo do mesmo cunho dos que foram analisados por nós, mesmo que em menor número. No entanto, depois dessa maior repercussão do BL, o que identificamos, seguindo o que Ernst (2005) chama de categoria do “estranhamento”, foram discursos que julgavam as leitoras mulheres de BL como “problemáticas” e “fetichistas”, além disso esses discursos, diferente do que o esperado, não estavam partindo de sujeitos identificados com o conservadorismo ou com FDs preconceituosas, partiam de sujeitos supostamente identificados com o discurso LGBTQIA+.  A partir disso, recolhemos material na rede social X/Twitter para construir o corpus discursivo dessa pesquisa, que foi dividido em três recortes, sendo eles:  “recusa e disputa do lugar de enunciação como leitor/autor de BL”, “o uso das palavras “fetichista” e “fetichização”” e “possibilidade de censura/interdição do dizer”. Para a análise das sequências discursivas (SDs) selecionadas, utilizamos, além de conceitos básicos da AD como “discurso”, “sujeito” e “formações discursivas”, também os conceitos de “lugar de enunciação” (Zoppi-Fontana, 2019), “silenciamento” (Orlandi, 1993), e seguimos o dispositivo teórico-analítico proposto por Fernandes e Vinhas (2019). É importante definir primeiramente o que é “lugar de enunciação”, pois é um dos conceitos fundamentais de nossa pesquisa. Lugar de enunciação, como proposto por Zoppi-Fontana (2019), é o lugar a partir do qual um sujeito produz seu discurso a fim de se posicionar na disputa pelos sentidos, nesse caso tratamos principalmente da ocupação do lugar de leitor/autor de BL. A partir da  análise do discurso sobre a ocupação do lugar de enunciação do BL, identificamos duas posições-sujeito (PS) as quais denominamos fiscalizadora e contestadora. A posição-sujeito “fiscalizadora” é aquela que busca impor limitações sobre o que pode ser dito ou quem pode enunciar em obras BL, visando interditar o sujeito-mulher e recusá-lo como leitor ou autor de BL. Já a posição “contestadora” é aquela que se opõe ao discurso produzido pela PS fiscalizadora e procura manter a liberdade de expressão artística no BL e não impor limites a suas leitoras e autoras. Dessa forma, concluímos nossa investigação com a noção de que há uma disputa pelos sentidos entre as posições-sujeitos sobre o que pode e o que não pode enunciar sobre/no BL e uma necessidade higienização das mídias queer, nesse caso o BL, pela PS fiscalizadora combinada com traços de uma ideologia conservadora próprias dos discursos cristãos.


A Recepção Transnacional do Girls' Love Tailandês: Paratextos e a Reconfiguração da Experiência Midiática Lésbica

Marina Luz de Carvalho (Pós-Graduanda da UNICAMP)


A indústria de entretenimento tailandesa consolidou-se no mercado global com a exportação de séries de romance homoafetivo, mais conhecidas como BL (Boys’ Love) e GL (Girls’ Love). Recentemente, o consumo destas mídias se expandiu de forma massiva para o ocidente; em especial o GL, que se apropriou de estruturas estabelecidas pela indústria BL, criando novas dinâmicas de engajamento no fandom sáfico. Essas novas mídias abriram espaço para diferentes contatos culturais e narrativos que suprem históricas demandas afetivas e de representatividade. Através de aportes teóricos da História Cultural e Estudos de mídia, pretende-se examinar o consumo de séries GL tailandesas e como esse fator impacta e reconfigura as expectativas e práticas da audiência lésbica no ocidente. A perspectiva cultural, aliada à noção de cultura da convergência e à análise de paratextos, aplicada especialmente no contexto da indústria pop queer asiática, permite explorar os impactos das produções GL na recepção sáfica ocidental, a partir da análise de engajamento com materiais promocionais, fanmeetings e fanservice, que sustentam e expandem a experiência de consumo da obra principal. Por fim, ressalta-se como a indústria cultural tailandesa gera um nível de imersão e pertencimento inédito ao seu público, dinâmica que altera ativamente a lente através da qual fãs ocidentais passam a exigir e vivenciar mídias sáficas globalmente, estabelecendo novos moldes para o gênero.


A Trajetória dos Estudos sobre Boys’ Love no Brasil: Uma Análise da Produção Acadêmica entre 2010–2025

Renata Vettorazzi (Pós-Graduanda da Universidade Federal do Paraná)


Produções Boys’ Love (BL), como mangás, animes, jogos e light-novels, retratam relacionamentos homoafetivos masculinos e são escritos majoritariamente por e para mulheres. Surgido no Japão na década de 1970, sob a classificação de shounen-ai, foi difundido para outros países asiáticos na década de 1990, consolidando-se em novos formatos e mercados, como doramas e manhwas. No âmbito acadêmico, os estudos sobre BL no Brasil tiveram início em 2010, com os artigos de Glauco Aranha e Otávia Alves Sé, cerca de vinte anos depois das primeiras pesquisas no Japão e no contexto internacional. A princípio, buscam explorar principalmente por que(m) as obras são produzidas e seu respectivo público leitor: as mulheres. No entanto, mais de quinze anos após a primeira reflexão, ainda há pouco entendimento sobre o progresso do campo no contexto brasileiro. Logo, este trabalho teve por objetivo compreender como o BL é investigado no país, identificando as temáticas de maior interesse aos pesquisadores. Como método, foi realizado um levantamento da produção acadêmica brasileira dedicada ao BL entre 2010 e 2025. Esse mapeamento resultou em um corpus de 53 trabalhos científicos, entre artigos, monografias, dissertações e teses, que corresponde, até onde foi possível averiguar, à totalidade das pesquisas produzidas no país sobre o tema. Ao analisá-los, observou-se que as investigações se voltam para produções de outros países asiáticos, como as séries tailandesas (n = 13) e a obra chinesa Mo Dao Zu Shi e sua adaptação televisiva The Untamed (n = 8). Além disso, as fãs de BL — denominadas fujoshi — permanecem como objeto relevante para a academia. Estas persistiram, de modo recorrente, como foco das investigações (n = 15), que determinaram tanto os perfis das consumidoras, quanto suas percepções e interpretações acerca das narrativas. Ainda, a popularização das séries BL resultou em uma diversificação nos telespectadores, agora alcançando mais do público LGBTQIA+, que passam a discutir de que modo a representatividade ocorre e quão diversos são os corpos e as realidades apresentadas. Conclui-se, então, que são poucos os estudos que abordam o BL sob uma perspectiva mais ampla, compreendendo-o como uma demografia que se desenvolveu e se estabeleceu de maneiras tão diversas ao longo das décadas. Na apresentação, serão detalhadas e discutidas as principais tendências da produção acadêmica brasileira sobre BL, bem como as lacunas e possibilidades para o desenvolvimento do campo.


20h-22h

Mesa Especial

Prof. Dr. Thomas Baudinette (Macquarie University)

MESA EM INGLÊS


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